Da manhã de toda a vida…
Da manhã de toda a vida
Na manha de cada dia, donde o doce é suavizado,
O esquecimento permite o direcionamento, cristalizado;
Assim como na vida, a existência no nada enredada,
A manhã absorve o ser no fel com o qual sorve o mel nessa iludida estada.
E assim deixa-se ser o apenas neutro em dissociação;
Resignando o próprio ter, abraçando apenas o conceber.
Quiçá incapacidade, mas o socializar já é disfunção.
Ò doce mártir penitente, sangria seca de todo obedecer.
Já se é outro, quando se é essa relação; mas ainda se é apenas um.
E no advento desse outro, só o esconder-se a chamar pelo nome.
Fugir de tudo, mas fugir para o tudo, na medida em que esse tudo é nada, ou um.
Não se é para entender, pois não faz a menor diferença…
Nada mudará; o pão continuará sendo o pão amassado independente do discurso que o aprisione.
Na manhã de toda a vida, donde o doce é suavizado, não faz a menor diferença…
Alteridade do mesmo, abismo do outro
É só um esconder-se… o ver-se como póstumo jaz na alteridade.
Não àquela pertinente a outro, mas à própria relutante ao nada intempestivo.
Na promessa de um amor à hipocrisia de uma contingência rogada em personalidade.
O escondido ego deve ser merecido pela persona serene do corrosivo.
Oh impérios de luz, saboreando-se de indignas iluminuras.
Oh impérios populares, feitos de pessoas… asco ímpio é elogio à elegia.
Nesse humanismo prometido onde nem mesmo à terra prometida era posta em tais molduras.
Clamo-me à altura de minha felicidade ao fosso onde achei que regia.
Criaturas ausentes de alteridade me chamam, preciso dormir.
Mas o sono não deixa-me aquiescer à memória na qual o sorrir é propriedade.
A essência é menos mística do que o que se diz ser… pobres de egoidade.
Facínoras desprezíveis em seu atordoamento mnemônico…
Esfolar-lhes-ia como o fazem os homens de ação… mas à esses o mesmo faria.
Harmônico tudo parece ser ao exilado de alteridade, estúpido si renegado em eco…
Sempre quase, lá.
Carros cinza encobrem a vista, num paladar cético nauseante.
Inspecionando a culpa à passagem, erigida de um doentio buraco negro.
Fossa nominal, num resquício atido na emergência de uma argüição responsiva.
Gostaria de dormir nesse espaço flutuante, no sibilar epitáfio de minha conjugação.
Não sei mais dispor de mim; deveras nunca soube.
Cavando o próprio sepulcro a cada noite, a cada entrelinha de uma palavra dita.
A cada cavar de um inefável detalhe, que nunca digo por nunca fazer diferença.
Não deveria isso elevar em aspiração o seu orgulho, na ascendência dessa reticência.
Decadência é muito mais do que não saber, muito mais do que não superar a preguiça.
E essas sombras formadas por metáforas, tão metafísicas quanto qualquer texto,
Sobejam-me de orgulho, pois Dionísio e Narciso são apenas estados.
Superados a cada instante, pois o que resta é sempre o orgulho ante esse nada.
E se eu fosse algo ao qual pudesse ser objeto de atração, certamente estaria em um museu.
E esses carros já vão indo novamente, levando-me enquanto aqui sobrevivo, flutuando numa negação.
André Luiz Ramalho da Silveira
Mais um…
…Enquanto isso.
Já vai mais um instante, mais uma novidade que sobrevive,
Na lateral de um entrave, na noite de uma costa em declive;
Sou mais aquele talvez que de solavanco como um solstício desponta,
E permaneço como sombra de auto sabotagem, cujo rastro a mim remonta.
Enquanto isso desisto do meu desespero, à orla de seu suplício.
No perdão que não peço a mim, sou o próprio enquanto vazio de uma solidão…
Como ilusão imputada à seu comício, cuja calamidade impele-me ao vício.
Sirvo-me de algoz à própria sorte, abandonado ao reflexo de uma retidão…
Sem um próprio motivo para entregar a morte à vida,
Sem um próprio motivo para entregar a vida à morte,
A cada instante constato na existência o esvaecer de uma alteridade doída.
Donde perco a disposição de perder-me nos detalhes erigidos de toda situação,
Donde se constrói o próprio amor, destruído à forja de esmolas por qualquer inação,
Donde se é banido do próprio acontecer, tornando-se espectador da própria consternação.
André Luiz Ramalho da Silveira
Pra lembrar que se existe.
O descarte especial ruma ao espelho e volta-se como negligência imperial;
Torno-me então especialista em mim, no mérito próprio do vazio.
Na amplitude do vazio com esmero, deleitando e adornando todo o sonho trivial.
Destarte na ontologia da derrota, à qualquer sorte extravio.
No primor do rir escondo em possibilidade a transparência.
Na especialidade de ser imbecil, jogo-me no vil intangível.
Acho um pouco de dignidade entre fumaças e resigno em minha existência.
E ainda em indiferença banal finjo desespero ao jogar-me em seu reflexo amável.
Ao meu estúpido tédio chamo-o de existência.
E ainda espero resposta de sua amável penitência,
No âmago de minha repugnância, incrustado na ânsia de minha resistência.
Quero a amplitude de meu esvaecer, fazendo-me vir a ser.
Desisto pela incontável vez de meu descarte, desprezando qualquer fazer;
Especialista em mim, de muito pouco serve-me essa ontologia do morrer.
André Luiz Ramalho da Silveira
Par em sépia
Par em sépia
E quando olho na enferma profundidade de meus ímpares,
Superando com desdém o ímpeto da negação dos pares,
Vejo apenas minha sombra, deleitando-se no advento de mais uma lembrança;
Que assim ouso chamar de vida, derradeira, esculpida solitária lembrança.
Sorver o mais puro mel o com o fel da mais aguda reflexão.
Ater-me no esquecimento inquebrantável de toda cordialidade.
Incorporar o respeito vazio, cujo âmbito exclui de si mesmo a inflexão.
Respeito que se tem com todos, à que não nos é pertinente qualquer essencialidade.
Frágil comédia essa perseguição da atmosfera, donde a causalidade se reinventa.
E vendo apenas minha sombra eu sei que ao menos estou, calculando ímpares.
Querendo o cuidado egoísta de alguma frágil tormenta.
Ateando fragilidades como quem respira éter, apenas escondo-me em uma defesa lenta.
Numa marcha que nega o acompanhamento, alheando-me de ser como lares.
Como a lembrança que sou, de mim mesmo, numa sombra que se reinventa.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na esquina
Na esquina do desencanto
Com todo aquele encanto a entorpecer multidões, à espreita de um sorriso saltimbanco,
Na beira de um desencanto cotidiano, donde a paz consternada permanece como hábito.
Com todo fervor medíocre, como quem resplandece-se em esquecimento,
Num jardim de esperanças homeopáticas, donde quebra-se o reflexo manco.
Irrompe no espelho trêmulo das sensações a culpa de ser o itinerante e ver de longe.
Ver de longe a viagem e tudo o que está, na cisão original do ser e do estar.
Com o poente soturno, na alameda insípida da vida, até o sono se vê de longe.
E o ver já se basta como prazer, na contemplação do existir sem lar.
Com toda a exclamação de quem intenta no eterno sobreviver, no esquecimento manco,
Almejando ser determinado pelas escolhas deliberadas, como quem joga se pondo em jogo,
Na veracidade de certa descrença, salto na individualidade minha, em caco.
Salto no seu mundo tentando esquecer o meu, querendo cuidar o seu.
Mas deveras subterfúgio fugaz é, pois o prefácio do começar a viver é manter o ego.
Manter a desconstrução do existir, na beleza de se encontrar onde no outro repousa o seu.
Depois de um recesso…
Arlequim da fortuna
Invólucro do infortúnio, na ira de um brado visceral, adjunto a toda lama,
Num império que governo e que é só meu, meu império de força e solidão,
Na tristeza cotidiana de nunca estar alinhado ao caminho de quem clama,
De sempre estar na desfiguração existencial de meu si mesmo, no holismo de minha escravidão.
Sou como arlequim, jogado no que sou, numa veleidade de estar na vilosidade social.
Na vontade passageira de sentir-me comum, esquecendo do amargo diário…
Desejo inúmeras vezes atear-me com o fogo ressequido de minha fossa vital.
Sinto que nada precede e nem procede, nivelando-se toda a relevância do éden arbitrário…
Esquecido pela fortuna, lembro-me apenas da finitude sempre imanente.
E, que mais do que ter a morte como a mais intrínseca possibilidade, sei que…
A liberdade maior é poder-se entregar a doce dissociação do esquecimento eminente.
Com o gosto ainda de desprezo, beijo a idéia de sua nudez.
Na perturbação de não ter caminho, escolho a sua nudez. Quisera eu escolher não mais ser.
Mas isso não é nem tangenciável, pois ainda meu inferno é melhor do que o esquecimento de minha altivez.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa: III – Obsessão em retorno
E é um não… sempre um não a determinar, às vezes por mim determinado.
Não suportar mais, mesmo se sabendo sempre que se suporta, é quase hábito.
Nunca quis nexo algum, este vil nexo ávido por mornas possibilidades, por um comum determinado.
E quiçá quis voar, como agora. Só voar, mas vôo só, só por hábito.
Só, é o que me retém; tendo a mim sou condenado, a mim; confuso por me anular.
Mas me anulo de nexo prático, de tudo o que é pra todos. Num brado irado, decepciono-me por saber que tudo continua o mesmo.
E pra sentir onde estou ainda me jogo no muro. No muro anelar.
Mas alguma sensatez ainda me é pertinente, mesmo num espasmo a esmo.
E se tudo necessário fosse, poderia eu me culpar?…mas, por ser necessário é que me torno contingente.
Indigente sapiente de sua condição, sinto somente essa força que enfraquece.
Solidão é tautologia que não se separa por vírgula, pois tudo volta ao “sujeito”.
Talvez minha única compaixão seja uma ínfima culpa, que me permite um sentimento com referência.
E nessa sentença, que se confere como árduo ditame, por mim é feita.
Feita como ilusão, numa árida existência não plastificada, mortificada em inocência.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa: II – Na sentença do muro
Bebendo do muro eu só vejo meras possibilidades.
Meras… mas nada há mais que isso… nem mesmo minha escolha pelo infinito como modo de viver.
Como modo de viver… mas modo de viver não é simples escolha, nem intangíveis realidades.
Mas, se intangíveis são…como se escolhe?.. elas nos escolhem…numa angústia por sobreviver.
Nenhuma teoria engloba toda a força de uma crença, que a sobrepuja, limitando o próprio infinito.
Como se isso possível fosse…mas são apenas possibilidades…e, crenças, possibilidades são?
Como se escolhe sem crer?…o hábito nos faz crer…cremos nos hábitos… eles crêem em nós, tornando-nos apenas um muro escrito.
Escrito pelos que nos antecederam, pelo muro que nos embriaga, que nos torna situação.
E uma decisão libertadora nos revela que pensamento é escolha, mesmo que não seja nossa.
Minha temeridade frente ao muro só é fraqueza, fraqueza pelo medo de ser forte.
Forte só é relação com fraco, mais uma crença…mais uma moral…mais uma sorte.
Fortuna é o que me determina…ao meio dia. Força é o que me liberta, de mim.
Mas de mim só sou, quando me escolho contemplando o muro, quando ele me culpa.
Me culpa só por ser, me culpa pela força, me tornando fraco. Me culpa pela meia noite, por de mim ser escravo, por ser culpa de mim.
André Luiz Ramalho da Silveira