De Vênus à morte da nostalgia

janeiro 26, 2010 at 4:55 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

A realidade que deveras tenho, é a eterna lembrança de algum sonho;
Não cessa em transmutar-se, nem em perder-se.
O que deveras conservo em realidade, é a eterna e quase pungente saudade.
De algo que não foi, que talvez nem seja, mas que ainda conservo ao cenho.

Todos os segredos são compreendidos como estruturas simbólicas da nostalgia.
A queda não é apenas um escolher,
Mas o visar o essencial que está já sempre aí, derretendo-se com a nevralgia,
Em mais uma sinestesia que elimina o solipsismo, ainda que continue indiferente o viver.

A raposa corre atrás de sua sombra, num combate com o próprio sonho.
Mas os gatos estão à espreita, seguindo a divisão.
Siga o caminho, àquele que você já sabe, não há volta para o moinho.

O amor é apenas é um novelo, que ainda conserva o enredo entre os montes ouriçados.
Os montes que guardam o motivo, a ser decifrado como segredo e punido com a hóstia.
Conseqüência do ser moral, mas não o fundamento da nostalgia dos desiquilibrados.

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Sonho III: A solitude de Sonhar

janeiro 19, 2010 at 1:31 am (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

A solitude de sonhar

Como seria apenas uma estada essa solidão?
As crianças da noite de hoje já não bebem o sangue,
Apenas acham que sabem da realidade como podridão.
Essa solidão não é simplesmente essa, ainda que com o profundo senso exangue.

As realidades misturam-se em sonhar, mas sempre o obedecem ao mesmo nível de ser.
Nunca deixam de serem pessoas, decadentes e infames crias do acontecer.
Dedicam-se aos hormônios e cultivam crenças que se esquecem de reler.
Mas jamais percebem a contingência do sonho e o sonhar como necessidade de ser.

Não percebem simplesmente que o desacontecer é o que permite o fazer,
Onde o amar é simplesmente uma palavra posta a nível existencial,
Em uma nuvem que chove quando se permite a sua natureza torrencial.

Orgulham-se da autenticidade solitária, sendo tão dependentes quanto um caranguejo.
De sua casca, ainda que na crença da proteção pela realidade do alheio despejo.
A solitude de sonhar é incompreensível aos que limitam-se ao execrado fazer.

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Sonho II – A sinfonia do sonhar

janeiro 14, 2010 at 5:12 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

Personalidade ferida… você tem medo da própria carência.
Acha que é apenas uma fase, sublimando isso a cada vez que vê as lágrimas no próprio reflexo.
Acha patética a falta de coerência dos discursos sobre o mundo como uma indecência.
Mas se arrebenta a cada pouco pra esquecer-se de si mesma na falta de nexo.

Achas que no sonhar esquece-te da existência pretensamente esquizofrênica,
Abstraindo-se no seguro refúgio do não fazer.
Mas apenas isso sublima, deixando-se sempre ser levada pela pretensa crise epistêmica.
Abstraindo-se no pretenso refúgio da iluminada pretensa ausência do crer.

Jogas-te na liberdade como se ela fosse um sólido predicado,
Esquecendo-te que a liberdade é apenas a plena ausência de necessidade.
Dizes sentir-se feliz por saber da contingência, mas ainda crê no pecado.

Achas que a própria máscara precisa de maquiagem,
Modela-te em dança onírica com o tempo, satisfazendo o próprio ego na pura vilanagem.
Mas é indiferente, no hospício todo louco crê na própria falta de imagem.

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Sonho I – O hospício de Sonhar

janeiro 10, 2010 at 1:32 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Foi apenas um delírio, uma anestesia fúnebre semelhante ao esquecimento,
Mas acordou a socos consigo próprio, no ardor do próprio derretimento.
A atmosfera caiu-lhe sobre o pulmão, na opacidade da ausência do tempo,
Re-apropriando os sentidos no asco da constatação do próprio chapo.

E pergunta o tempo ao destino: é você quem?
E responde o destino: sou aquele que você é quando posto em reflexão.
O tempo em reflexão se reflete no espelho quebrado da alma, cristalizada em um amém.
E a reflexão soa como uma tarefa sem o menor propósito à quem negado é o endereço de qualquer paixão.

De face com as sombras que perfazem os degraus, torno-me ébrio com o asco.
A ponto de não fazer a menor diferença à resposta do verbo,
Pois a resistência da própria realidade é a prova teológica do descaso do primeiro verbo.

A orientação vem com uma metafísica esmagadora,
Um silêncio que apenas mostra o circo.
Uma vida que apenas manifesta como a justiça distributiva pode ser retalhadora.

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Ode ao subterrâneo

janeiro 4, 2010 at 10:09 pm (Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

Esperando todos os dias pela queda do sol,
Fazendo a própria mente conceber o impossível pela dor inconcebível,
Mas o sentimento é garantido pelo verbo que cobre como um lençol.
Ainda assim você estupidamente crê na queda do céu como algo inatingível.

Não quer mais esse sacrifício imputado, a solidão que lhe fere a face,
A solidão que você mesma usa para se ferir, com o barato pretexto da segregação,
Chorando a ausência de escolhas, como se em toda essa má-fé faltasse enlace,
Como se a queda devesse ser superada para enfim em um lar se ganhar a salvação.

E é sempre mais fácil se perder no tempo do que perder o próprio tempo,
Toda essa pose guerrilheira ante o mal não passa de um recalque por não conseguir assumir,
Assumir a própria condição que pode ou não criar o mal, e ainda assim sorrir.

Mas você não tem motivos… quando cunharam-lhe um nome, o fizeram num epitáfio.
Humanidade, nada mais vazio e fraco do que essa sombra fétida que só foge do tempo.
Encerraram o preconceito no verbo… inventaram a droga para curar o vício.

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Testemunho ontológico do reflexo de Narciso

dezembro 22, 2009 at 4:31 am (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

E a crença no acontecer mostra-se como o fundamento da natureza,
Na qual funda-se a normatividade cotidiana, uma imputação pela destreza,
Ou pela falta dessa, mas ainda assim o julgamento exprimi-se como vileza,
Como um resíduo não transparente aos absortos no cotidiano da medíocre realeza.

O desacontecer é a manifestação originária da temporalidade,
Cuja compreensão ontológica revela-se como constatação de si próprio,
Pela qual o desfazer iminente torna visível a falta de necessidade,
A qual é a pressuposição para se crer no acontecer como natureza do brio.

E o espelho nunca é carregado, pelo temor de Narciso,
Mas a constatação do reflexo em sua solidão não torna possível
O afogamento nas próprias lágrimas, nesse determinar de tudo o que é impreciso.

A sanidade é apenas um defeito da senilidade,
E o amor… apenas o envolver-se no acontecer impróprio no esquecimento da maldição.
Mas não temo a verdade, não temo a ilusão, são apenas perspectivas de uma debilidade.

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Um anjo caído

dezembro 19, 2009 at 3:07 am (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

Um anjo caído

Silêncio gêmeo como o resíduo dos que tiveram as asas queimadas,
Gêmeo do grito de desespero que fora dissimulado em um sorriso normativo.
Ainda ouvem a voz que clama pelo derradeiro silêncio das alvoradas,
Esses que nem excêntricos conseguem ser, pois desprezam o vôo do coletivo.

O abismo figura-se como morada do ser, numa nostalgia sempre suspensa,
Atraindo para baixo àqueles que voam com asas espirituais;
Em uma imaginação que adorna o quase-viver, o limbo torna-se o que dele se pensa.
E voa-se com a leveza de um seixo, nesses estanques virtuais.

Ela quis explodir, seu corpo queimando como pétalas se congelando,
Mas ela queimou… as asas do seu amado, para se livrar da ficção,
Pois se acha na ímpar autenticidade dos que julgam espanando.

E o amor se derreteu com as asas do anjo, depois que este se congelou.
Agora a história é apenas o ideal do amor contada sob as vestes da tragédia,
Mas apenas história, apenas para acalentar esse que nunca amou.

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Dos ventos expatriados

dezembro 15, 2009 at 7:29 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

Dos ventos expatriados.

Nunca esquecerei aqueles dias, aqueles que nos faziam das ondas apenas o sal sentir.
Onde a moral era uma idéia que nos forçava a determinar alguma parte de nós mesmos.
Não esquecerei aquele sorriso que fora engarrafado, a ser lembrado num porvir.
Não esquecerei nada disso, mas talvez a lembrança mostre-se como espasmos.

Ainda assim, caminharei até quando não houver ventos,
Até onde a morte se mostrar como vida e, essa, como morte.
Caminharei na aurora embriagada, até o fim dos encantos.
E quando não agüentar mais, apenas irei rir da moral rogada à sorte.

E por aqueles dias me seguro, fazendo meu lar à construção da nostalgia.
E meu erro apenas será um voluntário levante contra o destino.
Por meu erro, tomo-me como um fruto expatriado daquele futuro que se coagia.

E a vida que engarrafei sempre volta em um novo barco,
Por mais escura a água que seja, as ondas ainda revolvem-se sem ventos,
E quando me rebater por um sonho, lembrar-me-ei que sempre sou eu meu próprio foco.

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A desistência da saudosa esperança

dezembro 11, 2009 at 4:30 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

A desistência da saudosa esperança

A desistência é o princípio de tudo, tornando visível o nada.
Ele olhava a singela flor, despedaçada por um mal entendido.
Mas que apenas o levava à mesma condição sempre glorificada.
Já não se tem motivos para crer, apenas se deixar ir nesse reflexo urdido.

À face do ninguém, que a sua volta resplandecia, tornava inútil o hábil verbo.
A sua existência começava em uma narrativa invertida,
Pois morrera em um projeto existencial futuro, onde apenas recitava de modo soberbo,
Àquela falta que não se pode falar, privado de qualquer experiência não refletida.

Existia como um advérbio, professando a solidão já previamente constatada,
Ulteriormente morto, apenas se agarrava a alguma emoção do passado,
Porque o presente se faz simplesmente de uma derrota amalgamada.

De nada o servia sua altivez, pois sabia que a moralidade havia danificado os corpos,
Corpos daqueles que crêem que o sofrimento deve ser eliminado para se ter paz,
Daqueles todos que se agarram ao tudo como se não houvesse nada além do imediatismo pragmático que subjaz a cada reles paz.

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A oração dos dias brancos

dezembro 7, 2009 at 10:34 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Nesses dias brancos em que as paredes arrastam-se em nós,
Parece que alcançaremos a salvação pela definitiva desistência,
Nesses dias brandos em que a indiferença deixa insignificante todos os nós,
Não faz sentido nem rogar maldição pela impotência.

E ainda levantas bandeira em nome desse sofrimento,
Porque ao acreditar que é justificada essa dor, poderás esperar salvação,
Mas esse abrigo que tanto procuras apenas é um lugar criado por seu lamento,
Onde tudo se encerra em ressentimento, num tormento que ainda não chega a ser implosão.

Nesses dias em que sua face me olha, por lembranças reflexas em cada canto,
Encontro-me com meu fim quase antes de minha reflexão…
Mesmo quando os dias andam em pares, onde a esperança repousa em um canto.

E ainda achas que ter esperança é esperar salvação… na construção de um bunker.
Talvez eu não compreenda seu estilo de vida, onde o amor é ganho num jogo de pôquer.
Só sei que a memória é a maior inimiga da esperança, onde a reflexão ora pelo ser.

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