Vertigem em revés

janeiro 5, 2012 at 7:51 pm (Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

De revés como quem anda em retrocesso nas camadas da abulia,
Escondo-me na fissura do espelho, que se consome, em letargia.
No fim apenas há um esconderijo vazio, cuja assepsia
Apenas revela o ressentimento e a neurose dessa permanente afasia…

A vertigem é o sentimento que nos coloca diante de nós mesmos…
Embrulhada por vaidade, ela nos faz querer ser vistos no meio de todos como falhamos.
E é preciso dizer que está tudo bem, manter o ar burocrático de que relações
São coisas que funcionam, e esquecer que tudo depende de vinculações.

E que nisso apenas há uma arbitrariedade quando o que se quer são explicações.
Mas para os corações não sequazes, a vida impõe a condição de Nero,
Em que se deve criar apenas para poder destruir as próprias determinações.

E mostra-se como fado terrível da existência o fato de que continuaremos
Seguindo os passos de Sísifo, em todo absurdo que permeia a cada nova esperança.
E quem sabe um dia nos queimaremos como Roma, ou ficaremos no caminho da pedra e descobriremos outro significado para mudança.

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Mirantes da Alma

dezembro 2, 2011 at 1:46 am (Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Um velho louco, sem montanha, desce ao brotar das gramas, num perdoar
Que não reverbera como alívio inócuo, de prospectos retumbantes,
Mas sustenta-se, como ataraxia, como em um ‘de agora em diante’, garoar.
Nesse retumbar angustiado, ressoa-se um si mesmo cindido dos significantes.

Por vezes, a gratuidade dos eventos nos faz ser, da vida, apenas coadjuvantes.
E a permanência da sanidade, mostra-se, através do gris a insanidade,
Que é existir como possibilidade, um vácuo eterno, que se dissolve em instantes.
E a loucura do mirante não desce, com o velho. O silêncio cuida da verdade.

“Perdôo-vos, humanidade maldita… mas para vós sentistes a culpa do próprio ser.
Nego-vos, humanos medonhos, assim como se vos negam a si mesmos…
E, sobretudo, vós que sentis a superioridade, por vos submeter ao verbo, como a

Identificação disso com a verdade, vós, que em vossa ignóbil conduta julgais
A autenticidade pelo saber esclarecido, mas que no coração jaz Pandora devorando a alma por mesquinhez… vos digo-lhes, por vez última:…” e os mirantes resignam-se como rugas em espirais.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Para cada colapso, um mesmo tango

novembro 18, 2011 at 10:27 pm (Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

Certos tormentos são como vultos imortais, que sempre nos transpassam,
Mas amiúde nos esquivamos pelo esquecimento que antecipa os temporais.
Essas faces esquivas que nos torna aéreos, essas paixões que movem os ventos,
Esse sentimento do fim que a cada começo surge abarca-nos como espirais.

O coração… o tango… palpita… como o púlpito que antecede a ação.
O que antecede… o absurdo como a condição humana, nada além, nada aquém.
E sobressai-se essa covardia, cujo instante seguinte é a amargura fixada num estado de inação.
Não há ponte entre o espírito e o mundo que afaga o absurdo da falta do sincero amém.

E essa descrição já se esvai perante a força da desconstrução de qualquer…
Não sair do campo do possível é a expressão máxima da consciência: apatia.
E o movimento. E as vidas. E o resto. Para nós, jaz como equivalência qualquer.

Se não fosse o estado de culpa pela condição da cisão, poderíamos ter a felicidade dos autômatos.
Aos homens de ação, para permanecerem na tragédia devem estar na comédia, e vice-versa.
E isso basta, para aqueles que fogem do vazio que é ser um si mesmo desvinculado de determinações e que apenas do mundo se dispersa.

 

André Luiz Ramalho da Silveira

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Escopo da abjeção

outubro 25, 2011 at 3:05 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

E o mundo me cala. Não, eu calo o mundo.
Ora, mas faço eu o mundo me calar, como o mais autêntico fracasso que embala
A solidão que nunca é atingida, porque nela apenas se é, um fundo sem fundo.
E as lágrimas apenas saem pela necessidade que é perseguir a contingência que nos entala.

Harmonia é o imaginário eu que melhor advém à liberdade prospectiva…
Chamada sobrevivência. Mas do mundo já me distancio, alheio á tudo que me guia.
Liberdade não vai além da autonomia visceral de se saber como uma farsa paliativa,
Na construção teórica com o único objetivo de lidar com a morte como um negócio que expia.

Já não mais poesia há nessa farsa de ser, nessa lealdade ao jazer em modos.
Secam-se os lagos a cada inspiração desnecessária que à vida fazem.
E não importa o que se faça, nada irá destruir esse muro, tijolos de felicidade, sopros de engodos.

A consciência é essa doença que nos torna humanos,
Excludentes de um Deus, mas condenados a lembrar da ficção de um tempo
Sem liberdade. Não há escolha que sobreviva a angústia dos sem-anos.

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Contracultura de hipocrisia

setembro 25, 2011 at 9:33 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

E a busca por um lugar que suprima a vontade de decadência
Não depende da correspondência da realização de apenas mais um arfar.
Sempre se corre para esquecer-se da cisão que assola esse lugar da existência.
E mesmo assumindo a pretensa finitude, far-se-ia da terra, ar.

Os dias permanecem o mesmo espelho retorcido que nos absorve
E não se pode suspender o ser do estar, para além do solo dos sonhos.
De onde a ausência assume a poesia e, a morte, como possibilidade se dissolve
Pelas imagens que o discurso não cunha; mas, aquém disso, somos apenas moinhos.

E os olhares congelam como um julgamento fulminante pela multiplicidade idônea
Das pessoas de caráter, pela busca incessante de salvação, numa ação sempre
Bem dirigida, como uma hipocrisia tão bem cristalizada que jaz como a insígnia

Dos homens de ação, com a certeza impenetrável de felicidades ridiculamente egoístas,
Com discursos sobre justiça que soam esmagadoramente suaves, crenças disfarçadas.
O discurso ativo da contracultura parte do mesmo ponto da impessoalidade, fracas risadas.

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O cerrar das sombras – um novo dia

setembro 2, 2011 at 7:21 pm (Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Não sou mais o mesmo; com o cerrar dos olhos já não me vem mais o encerrar do dia.
Não sei se não sou mais o mesmo, mas já não sinto mais a mudança
Através do aspecto substancial de algo que muda, mas apenas como um emudecido mudar que adia
A cada novo dia um novo cerrar de perspectiva; a noite é já sem pujança.

Já me estranha a permanência no tempo, mas sem aquelas dúvidas que levam o homem
À ação, apenas fujo para mim com uma angústia silenciosa e sem propósito.
Sem o ceticismo dos asseclas da liberdade, apenas o alheamento que envolve me vem.
Como algo a ser cuidado, como o mais próximo de mim que consigo, sem qualquer rito.

A ausência torna-nos livres, infelizes e sequazes da falta de solo que é a existência.
Já não participar de nada não me desola, meu orgulho vazio não cairá
Apenas pela decadência do existir, já não sinto a necessidade de expressar a proposição absoluta da imbecil coerência.

E não sei até quando, mas já a mudança não muda as pessoas.
Hipócritas são todos, menos o espelho da noite que reflete o dia torto dos sonhos.
Cerro meus olhos e caio em mais um abismo, ainda escondo-me entre pessoas.

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A autenticidade do erro

agosto 8, 2011 at 4:41 am (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Além das idéias manufaturadas, cujo processo é um berro estridente de um abscesso
O qual veda qualquer singularização e transparência de cisão,
Aquém do sentido que paira sobre os que usam concepções como progresso ou retrocesso,
Jaz o campo vazio que circunda a existência, o insurgir da cisão.

Escolhemos modelos de concepções morais já cristalizados
Para não sufocarmos no próprio processo de constituição de que fazemos parte.
A vida é um erro, onde a possibilidade cunha-nos como não mais fossilizados.
E só é mais erro o querer não viver do que o erro que é o viver, porque o primeiro é deste uma parte.

Não uma parte que, somada, acrescentaria o sentido de totalidade à derradeira ação,
Mas sim porque só é possível querer o próprio fim, por mais absurdo que isso seja,
Pela razão de que existimos como possibilidade de ser, que em sua máxima realização

Será ainda a plenitude da possibilidade… o autêntico erro…
E somos tão escravos que, se liberdade é possibilidade, nossa máxima expressão
Será sempre algo não alcançável concretamente; mas se o sonho é maldição, não cairemos por um simples erro.

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Vertigem do Sol II

julho 2, 2011 at 8:56 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.

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A vertigem do Sol I

junho 25, 2011 at 7:46 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.

A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.

Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.

Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.

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Hematomismo hermético

junho 18, 2011 at 2:40 am (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Para julgar a sujeira é preciso estar limpo, mas a limpeza só é possível
Porque a miséria é o que sustenta toda a fragilidade do corruptível.
E, de modo geral, tudo se passa, para as pessoas… no modo em que vêem
As imagens do mundo… num egoísmo que delas sobrevêm.

Explodem sentimentos, delineados por uma racionalidade prática
Configurada em formas ignóbeis, num olvido que precede a proposição
Através de ideais fundados na impropriedade geral, uma dissolução
Da singularização… a posição no mundo implode essa miséria ética.

Mas volto a mim, mesmo sem ter saído, mas como expectador
De mim mesmo, numa memória que antecipa um ser já caído
Volto sempre na medida em que vou… brado essa dor com ardor.

Não há insistência para os corpos que negam a alma, para almas que rejeitam
O corpo… no hermetismo me camuflo, mas sem a metafísica da ciência.
Amor é não substantivo, ódio não é adjetivo… Se olhem e vejam a face que rejeitam.

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