Vertigem em revés
De revés como quem anda em retrocesso nas camadas da abulia,
Escondo-me na fissura do espelho, que se consome, em letargia.
No fim apenas há um esconderijo vazio, cuja assepsia
Apenas revela o ressentimento e a neurose dessa permanente afasia…
A vertigem é o sentimento que nos coloca diante de nós mesmos…
Embrulhada por vaidade, ela nos faz querer ser vistos no meio de todos como falhamos.
E é preciso dizer que está tudo bem, manter o ar burocrático de que relações
São coisas que funcionam, e esquecer que tudo depende de vinculações.
E que nisso apenas há uma arbitrariedade quando o que se quer são explicações.
Mas para os corações não sequazes, a vida impõe a condição de Nero,
Em que se deve criar apenas para poder destruir as próprias determinações.
E mostra-se como fado terrível da existência o fato de que continuaremos
Seguindo os passos de Sísifo, em todo absurdo que permeia a cada nova esperança.
E quem sabe um dia nos queimaremos como Roma, ou ficaremos no caminho da pedra e descobriremos outro significado para mudança.
Mirantes da Alma
Um velho louco, sem montanha, desce ao brotar das gramas, num perdoar
Que não reverbera como alívio inócuo, de prospectos retumbantes,
Mas sustenta-se, como ataraxia, como em um ‘de agora em diante’, garoar.
Nesse retumbar angustiado, ressoa-se um si mesmo cindido dos significantes.
Por vezes, a gratuidade dos eventos nos faz ser, da vida, apenas coadjuvantes.
E a permanência da sanidade, mostra-se, através do gris a insanidade,
Que é existir como possibilidade, um vácuo eterno, que se dissolve em instantes.
E a loucura do mirante não desce, com o velho. O silêncio cuida da verdade.
“Perdôo-vos, humanidade maldita… mas para vós sentistes a culpa do próprio ser.
Nego-vos, humanos medonhos, assim como se vos negam a si mesmos…
E, sobretudo, vós que sentis a superioridade, por vos submeter ao verbo, como a
Identificação disso com a verdade, vós, que em vossa ignóbil conduta julgais
A autenticidade pelo saber esclarecido, mas que no coração jaz Pandora devorando a alma por mesquinhez… vos digo-lhes, por vez última:…” e os mirantes resignam-se como rugas em espirais.
André Luiz Ramalho da Silveira
Para cada colapso, um mesmo tango
Certos tormentos são como vultos imortais, que sempre nos transpassam,
Mas amiúde nos esquivamos pelo esquecimento que antecipa os temporais.
Essas faces esquivas que nos torna aéreos, essas paixões que movem os ventos,
Esse sentimento do fim que a cada começo surge abarca-nos como espirais.
O coração… o tango… palpita… como o púlpito que antecede a ação.
O que antecede… o absurdo como a condição humana, nada além, nada aquém.
E sobressai-se essa covardia, cujo instante seguinte é a amargura fixada num estado de inação.
Não há ponte entre o espírito e o mundo que afaga o absurdo da falta do sincero amém.
E essa descrição já se esvai perante a força da desconstrução de qualquer…
Não sair do campo do possível é a expressão máxima da consciência: apatia.
E o movimento. E as vidas. E o resto. Para nós, jaz como equivalência qualquer.
Se não fosse o estado de culpa pela condição da cisão, poderíamos ter a felicidade dos autômatos.
Aos homens de ação, para permanecerem na tragédia devem estar na comédia, e vice-versa.
E isso basta, para aqueles que fogem do vazio que é ser um si mesmo desvinculado de determinações e que apenas do mundo se dispersa.
André Luiz Ramalho da Silveira
O cerrar das sombras – um novo dia
Não sou mais o mesmo; com o cerrar dos olhos já não me vem mais o encerrar do dia.
Não sei se não sou mais o mesmo, mas já não sinto mais a mudança
Através do aspecto substancial de algo que muda, mas apenas como um emudecido mudar que adia
A cada novo dia um novo cerrar de perspectiva; a noite é já sem pujança.
Já me estranha a permanência no tempo, mas sem aquelas dúvidas que levam o homem
À ação, apenas fujo para mim com uma angústia silenciosa e sem propósito.
Sem o ceticismo dos asseclas da liberdade, apenas o alheamento que envolve me vem.
Como algo a ser cuidado, como o mais próximo de mim que consigo, sem qualquer rito.
A ausência torna-nos livres, infelizes e sequazes da falta de solo que é a existência.
Já não participar de nada não me desola, meu orgulho vazio não cairá
Apenas pela decadência do existir, já não sinto a necessidade de expressar a proposição absoluta da imbecil coerência.
E não sei até quando, mas já a mudança não muda as pessoas.
Hipócritas são todos, menos o espelho da noite que reflete o dia torto dos sonhos.
Cerro meus olhos e caio em mais um abismo, ainda escondo-me entre pessoas.
A vertigem do Sol I
O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.
A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.
Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.
Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.