Encontre amores, encontre palavras para quem você quer endereçar amores,
Encontre paixões, não negue a conduta do prometer,
Encontre o esquecer que tanto lhe apraz, encontre os risíveis amores,
Encontre tudo o que puder nisso que apenas torna indiferente esse morrer.
Encontre mais valores morais para seguir, principalmente para ser livre e não ser moral,
E nem mortal, e viver na era de aquário num Éden artificial com incensos de tarja preta.
E assim novamente dizer que ama, porque te sentes envolto numa ausência carnal.
E achas que o ressentimento é apenas um detalhe dos que não mais tem qualquer meta.
E assim te preenchas com aquele sol de vidro em uma sexta-feira à noite,
Ruminando dinheiro por outrem mascado, achando-te autêntico ao não dar o bote,
E ficando feliz por ganhar novamente um novo motivo para seguir um ígneo amor.
Tão ígneo que se apaga com a menor constatação da própria reles insignificância,
Mas tão profundo que já se esquece disso, criando mais um motivo para seguir com ardor.
E assim te tornas livre, sem moral, sem conceitos, apenas seguindo sem memória o que foi dito e ordenado com magnificência.
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E vamos roubar uns raios desse sol, vamos roubar um ao outro,
E vamos brincar de odiar deus, vamos odiar um ao outro,
E vamos ser o nosso erro, o erro que perpetua sempre como outro,
E vamos fugir juntos, para no final voltarmos a ser sem qualquer outro.
(E no lar, o ressentimento assume a força real da intransigência.)
Quero estar contigo nessa distância que nos separa,
Prefiro ter a possibilidade de lhe ver, assegurando minha ontologia,
Do que lhe ter como um fato, deliciando-me cada vez mais com a paz amiúde rara.
Se pudesse seria você, já que sou quase eu.
(Não, não sou mais que eu; isso me seria uma fraqueza muito grande.)
Sou apenas quase eu, por vezes ausente de eu, mas ainda quase eu.
E vamos roubar mais um sol, enquanto nesse nosso badalar transcendo à liberdade,
Enquanto no lar de meu fardo deixo-me apenas ser o que quer ser,
Enquanto torno-me o fatalista sempre disposto à piegas piedade.
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Àquela solidão de mil anos não era mensurável nem mesmo em um calendário,
Histórico de contravenções hereditárias, onde a decadência sempre fora celebrada num relicário,
Mesmo essa solidão não poderia ser entregue ao mero arcabouço literário…
Mas o que se via ali era a eterna solidão, residindo naquele ser como um pequeno vestuário.
E a necessidade geral, de motivos e crenças, jazia como outra dimensão,
Sentia que o próprio sangue não lhe era tão próprio,
Mas ainda sabia que, antes das palavras, estava o vazio que orientava a compreensão,
Numa diáspora que o tornava estrangeiro a si próprio, num asco ao opróbrio.
E quando ainda procuravam salvação, num abrigo de província científica,
Sentia que o quase no qual impelia-o, agraciava-lhe com uma espécie de armadura estóica,
Mas que nem mesmo a indiferença ecumênica o despia da liberdade,
Como o puro transcender para si mesmo, tornando-se uma alteridade sem qualquer qüididade,
Onde se compreendia apenas pelo esboço que deixava em resíduos de linguagem;
Mas no sorriso que ainda mantinha, havia algo que não lhe fora roubado pela libertinagem.
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Ele a acariciava como ela lhe fosse apenas uma extensão de seu corpo,
Como se sua fina e limpa pele lhe fosse apenas um espelho de sua alma,
E nesse espelho compreendia-se como uma totalidade existencial, onde seu escopo
Fora e quiçá sempre será a nulidade, cuja possibilidade é condicionada apenas por um si na lama.
Mas nada lhe poderia ser pior do que a abrupta e repentina ausência
De sua amada, na qual a metafísica lhe era só um abrigo…
E na sua fome e sede, junto com aquele medo também metafísico, deixava um resíduo de reticência.
Que fez-lhe a fuga dos céus, para que a ausência fosse real, não apenas tema de artigo.
Agora que a ausência dela lhe era real, não sofria com a totalidade aterradora…
Sempre sufocante, já que ainda podia ter uma inútil esperança um tanto ameaçadora…
Mas ainda sim algo a esperar, e não sofrer com o medo da própria finitude.
Medo da própria finitude… e ainda pensava naquela fina pele e naqueles negros cabelos,
Que tanto o admirava… mas já que amava mais o reflexo do seu ego naqueles cristais ouriçados,
Continuou passando a mão nos próprios cabelos, admirando-se da decadência passiva dos desavisados.
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Esvaindo-se por sombras estrangeiras, que são acariciadas por púlpitos melindrosos,
Torno-me ébrio com meu pungente asco, num tango que brinda o peso,
De uma existência tão vazia quanto o espírito efuso,
Da leveza dessa transcendência ao peso da indecência, escuso como cães medrosos.
Terno sono que inteiro some, advinha o que somo numa brincadeira de sonhar.
E à maneira dos histéricos, que senhores do som pensam ser,
Levo a termo meu silêncio, apenas para confirmar mais um desarmar.
Mas se caso apenas for um sonhar, sei que ainda posso novamente me estarrecer.
E então novamente estamos exauridos, de nós mesmos excluídos.
Mas eu preciso que continues a precisar da minha necessidade de lhe ter,
Minha decadência não teria sabor sem seu favo, garota… é o canto dos lírios excetuados.
E ainda penso quem poderia assassinar a alteridade de nossas ausências,
Nas ternas sobras impessoais que governam o fulcro dessas cadências.
Como vultos que tornamo-nos, a apropriação de si é só mais uma ausência de ter.
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Toda fala, ecoada por risível silêncio, encerra-se em cripta rala;
Por fim se esconde aquela remissão ao social, garantia de qualquer valor moral…
E quando se é acalentado pelo desespero, que agora já se cala,
Tem-se como postura o afirmar do próprio ego, na falta da possibilidade de um solo real.
Mas o real solo social é um predicado além da nulidade do deserto individual.
E quando no aclamado hábito do diário fazer-se advém a perturbada lembrança,
Ou a tranqüila angústia, a doce decadência revela-se como condição mortal,
Cujo tédio é apenas o sentir-se sendo nessa indiferença.
E a volúpia que na artéria pulsa, abnega-se perante a profunda ausência.
Ou ressente-se perante a imagem da carência.
Ou fataliza-se pelo próprio transparente ego em decadência.
E queimam-se promessas de plebeus que se querem reis…
Dos cansados e fracos na vileza com que juram amor…
E se fere a solidão, onde no escuso suicídio floresce-se com nova dor.
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Como senhor do próprio caminho, denominado sonho pelo próprio destino,
Criado pelo próprio senhor do espinho, onde cravou as mãos na rosa do desatino,
E descobrira que tudo o que sabia com o vinho, onde o próprio abismo lhe fora desvelado por seu próprio seu tino,
Apenas tornou indiferente a questão pela verdade em seu coração que não passa de um enferrujado sino.
E na absorção do próprio juízo, degustou o próprio deserto conceitual da desvitalização,
Intuindo o mundo em apenas um instante, ferindo-se com seu próprio espinho,
Como um errante de possibilidades, que num talhar descobre-se como a refração,
A própria, amarga e cinzenta refração de seu reflexo partido… espelho feito espinho.
E pensa como seria se fosse mais real que um sonho,
E ainda que a loucura seja tão aquém de si quanto além do próprio saber,
Compreendia o quão turvo era seu cenho,
Mas como somente a liberdade pode ser tão vazia, sentia que um sonho já não era.
Que aquilo que lhe fora num tolher divino tirado, não fora sua identidade, mas sim o próprio sonho.
Que não podia mais sonhar, não podia ver outro que não a si mesmo no espelho quebrado que lhe fora destinado pelo próprio senhor do sonho.
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Do rastro daquelas palavras erguem-se pedestais, como uma morta nebulosa.
Tão frias e sinceras, provando que nada há de errado nesse opróbrio.
Que nunca houve nada de errado, que a corrupção é aquém a qualquer ilusão difusa.
E com o obedecer de qualquer oráculo, quando a salvação vier há de se estar ébrio.
Não quero salvação, ignomínia moralidade de nervos flácidos.
De culpa sinto apenas a minha, não a de um degenerado olimpo.
Assimilado pela bestialidade daqueles desertos floridos.
Mas ainda meu reles misticismo protege-me das religiões e das ciências, num brado ímpio.
Acreditando no que vem de dentro e absorvendo o que está fora,
Como se houvessem tais dimensões,
Somos obrigados a crer… é o que diz quem ora.
Mas não faz qualquer diferença a pergunta por existir ou não…
Quem está absorvido por si próprio não alcança o suicídio pelo desapego.
Materialista do espírito… assim é aquele que, quando existe, ganha já um ‘não’…
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E isso não é nada além do que uma fuga,
Sou sua comunhão consigo mesma, numa híbrida sinceridade,
Da mais vulgar à plena sensatez que lhe refuga,
Que tanto me faz bem, mesmo sendo uma perdida brisa de alteridade.
Não lhe sou mais que um motivo para crer,
Que nem tudo é sofrer, que às vezes vale à pena tecer,
Só o que nunca lhe disse é que o fracassar é inerente ao tentar,
E esse, como imanência que transcende o próprio realizar.
Não, não lhe sou nada além do que um motivo…
Algo a que você possa estar segura de que um dia alguém lhe dará um ouvido.
E que jamais cairá no olvido, pois o miserável ego ainda é altivo.
E sua comunhão depende de minha autorização,
Você precisa de mim como ausência, não suportaria qualquer realização,
Você me dedica todo o respeito do mundo… mas cordialidades não pulsam o coração.
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Quão bela é essa contingência, que me dizes estar eu embrulhado como rouxinol em seu cantar.
Belo também é a forma como são criados os problemas, uns à necessidade, outros à contingência.
Mas quando se vive à maneira de gramatical pessoa primeira, é fácil julgar.
E quando a simples existência já fica para trás, em terceira pessoa resume-se uma negligência.
Estagnando qualquer estupidez, qualquer vileza, qualquer resquício de cordialidade.
Mas não há de querer a simples vida aquele que se mostra como um gerúndio abnegado.
E ainda anda onde nunca andou a rosa constipada da magnanimidade.
E sua arte é apenas o fel escorrido da fraqueza dos nervos de um conceito assexuado.
E quando, no esforço para acompanhar a própria cordialidade, vê-se no espelho,
Quebrado por não mais agüentar o próprio reflexo, num mundo deveras literatelho,
Apenas sente como refração uma perdida alteridade, num futuro regado a malho.
Talvez seja muito bom o belo, para que tantas escórias brindem parvoíces.
Mas não há de se esquecer que o reflexo não pode ser ético, como querem marusses em glacês.
Mas não há de se lembrar aquele que é apenas abstrato, desprezando as próprias veneradas tolices.
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